ALITERAÇÃO Karla postou no whatsapp um vídeo em que uma pessoa fala um texto enorme no qual todas as palavras começam com a letra P. E pergunta: Isto é literatura? E eu pergunto: Isto está registrado em escrita? Se estiver, é literatura. Se tem valor artístico, literário, se vai permanecer como arte, são outros quinhentos. Vamos ao texto. O autor da brincadeira usou de um recurso de linguagem chamado ALITERAÇÃO, que consiste na repetição de um mesmo fonema numa mesma frase, período, texto inteiro. Nesse caso específico, não obstante o mérito do esforço, não se pode dizer que se produziu um texto de valor estético. Trata-se mais de uma curiosidade. Já autores de reconhecido mérito literário, principalmente poetas, unem forma e conteúdo e usam a aliteração para criar beleza e emoção e produzem obras-primas que perduram através dos tempos. Eu me lembro vivamente de uma das primeiras aulas de Teoria da Literatura, na qual a professora exemplificou o conceito de aliteração com o poema de Paul Verlaine Chanson d’Automne: “Les sanglots longs Des violons de l’automne Blessent mon coeur D’une langueur monotone (…)” Alguém se lembra de mais algum texto, ou letra de música?
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Ainda no whatsapp, Karla citou três exemplos de aliteração: as canções Ode aos Ratos, de C. Buarque, e Mina do Condomínio, de Seu Jorge, e o poema abaixo:
Canção do vento e da minha vida
Manuel Bandeira
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E varria as amizades…
O vento varria as mulheres…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.