O Amante Japonês, Isabel Allende – Apresentação de Teresa Lirio

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Nome: O amante japonês
Autor: Isabel Allende
Ano: 2016
Data do encontro: 02/02/2017
Apresentação por: Marília, Andyara, Andreia e Teresa Lírio


Encontro de 2/02/2017

Para ver apresentação clique aqui:  O amante japonês

Protagonismo, Repetições e Transformações.

Sobre o livro O Amante Japonês, de Isabel Allende

Teresa Lirio


Em uma entrevista perguntaram a Isabel Allende de onde ela tirou força para escrever o seu livro Paula. Ela falou bastante da filha, de sua dor, do quanto se expôs no livro e disse que na verdade foi o inverso: escrever lhe deu forças.

Falando de seu processo criativo, disse ter muitas sementes, algumas florescem, outras não. Vai se interessando por histórias, ouvindo as pessoas, e de repente surge um encontro fértil entre o que ouviu com algo que tenha significado especial para ela. Daí nasce um novo livro.

Achei muita semelhança entre o seu processo criativo e o processo de produção dos sonhos. Somos todos escritores e cineastas. Na teoria psicanalítica, fantasias e angústias, enfim, conflitos, constituídos pelo desejo em seu enfrentamento com a realidade, são os protagonistas dos sonhos. O processo de elaboração onírica, transforma os conteúdos latentes em conteúdos manifestos, resultando na narrativa do sonho. Muitas vezes, um sonho é seguido por outro, aparentemente diferente, mas motivado por aspectos inconscientes semelhantes. Como se da primeira tentativa de elaboração resultasse uma aproximação maior com a dinâmica inconsciente, que vai insistindo e encontrando menos resistência em se expressar.

Nos sonhos, os aspectos inconscientes dão o tom do conteúdo latente, já nos escritos ou filmes, embora sempre possa haver algo inacessível, os fatores inspiradores podem ser do conhecimento do escritor.

No momento da escrita do Amante Japonês, Isabel estava as voltas com o envelhecimento, e, com muitas interrogações sobre o amor na maturidade, interessada em entender como o amor acaba, e, se pode haver paixão na velhice. Seu casamento havia acabado, estava muito carente e quis escrever uma história de  amor…

Escreveu uma estória com duas tramas que se cruzam. Um casal mais velho e outro mais jovem. Estórias separadas por décadas e por diferenças sócio/econômicas/culturais, mas com semelhanças significativas.

Que fatores comuns movem essas tramas? Quais os protagonistas? Alma e Ichimei? Alma Belasco e Irina Balizi?

Em 1939 – início da segunda Guerra – Alma Belasco foi mandada pelos pais para América devido ao perigo do nazismo e foi acolhida pelos tios em São Francisco.  Enamorou-se do filho do jardineiro, Ichimei Fukuda.  Irina também deixa sua cidade e sua família e sofre com a violência da guerra.

Os pais de Alma foram mortos pelo Nazismo. Irina também perdeu os pais, não por morte, mas pela perda da função de cuidadores e protetores. Também eles foram atingidos pela violência da guerra e pela miséria de vida que levavam e que os tornou embotados afetivamente. Ana foi protegida, Irina foi abusada, mas as duas conservaram a capacidade amorosa.

Nas duas histórias, temos o desafio de vencer a diferença socioeconômica. As duas têm seus segredos; aliás,  a autora diz que o segredo e o suspense são fundamentais, e que nessa estória todos tem os seus segredos.

Aparentemente Alma e Irina  vivem um amor impossível…. Alma consegue reverter essa impossibilidade por sua determinação e liberdade interior. Irina também tem seus recursos; sua força de vida fêz com que apesar de tudo o que sofreu, continuasse amorosa, alegre, curiosa, enfim cheia de vida e fosse a pessoa cativante por quem Seth se apaixonou.

Comparei essas duas histórias a sonhos de uma mesma noite, nos quais os temas da vida de Isabel Allende, os assuntos que importam a ela têm o protagonismo.  Diferentes narrativas, com os mesmos elementos motivacionais.

São histórias de superação, de valorização da tenacidade na luta contra a adversidade, contra os preconceitos, e contra a violência. Em entrevistas a autora expressa seu horror a impunidade, e conta de seu engajamento na luta pelos direitos das mulheres e pela afirmação da liberdade.

Aliás, todos esses valores já são antecipados na epígrafe em homenagem a Soror Juana de la Cruz.

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Soror Juana nasceu dia 12 de novembro do ano de 1651 na fazenda de San Miguel de Nepantla, próximo à cidade de Amecameca, filha de pai basco e mãe mexicana.

Transcrição de um trecho do texto de Roberto Pompeu de Toledo publicado no Site do Wellignton Farias

“Ela era bela e era freira. Inteligente e admirada. Ser bela e freira, eis uma combinação que intriga e encanta. Era requisitada e festejada, tinha amigos nos altos círculos e, além do mais, era poeta. Principalmente, era poeta. E não uma poeta qualquer, mas autora de uma obra que acabou por consagrá-la como um nome importante da literatura em língua espanhola. “Ouve-me com os olhos/já que estão tão distantes os ouvidos”, escreveu num poema a um amigo ausente. “Ouve-me surdo, pois me queixo muda. “ Ela amava os paradoxos, os jogos com as palavras e os conceitos, e tinha um domínio de virtuose sobre o ritmo da frase. A personagem em questão é sóror Juana Inés de la Cruz, figura importante da literatura do México, onde nasceu e viveu entre 1648 e 1695. Três séculos depois, outra figura importante da literatura do México, o poeta e ensaísta Octavio Paz, falecido em abril último, ganhador do Prêmio Nobel em 1990, fez dela o tema de um livro publicado no original em 1981 e agora lançado no Brasil, Sóror Juana Inés de la Cruz — As Armadilhas da Fé (tradução de Wladir Dupont; Siciliano; 709 páginas; 56 reais).

….

Da menina Juana Inés sabe-se pouco. Amava os livros e a certa altura acalentou o projeto de vestir-se de homem para credenciar-se ao privilégio masculino que era frequentar a universidade. Acabou num convento, o que configura a primeira das duas grandes interrogações de sua existência. Por que resolveu ser freira? Por que, sendo bela e evidenciando mais vocação para a vida social do que para a religiosa, se decidiu pelo convento? A segunda interrogação tem origem lá bem adiante, quando, escritora aclamada em todo o mundo hispânico, decide não mais escrever e entrega-se inteiramente à reserva da vida religiosa. Por quê? Em torno dessas duas interrogações, Octavio Paz constrói seu livro”.

 Livro de Octávio Paz

Ao Introduzir o Romance O Amante Japonês com essa epígrafe, trazendo para a cena Soror Juana, Isabel já nos antecipa que seu livro tratará da luta para vencer a opressão e o preconceito, e do direito a buscar a liberdade e a felicidade.

Além de levar essa luta tocando as pessoas com os seus personagens e histórias, Isabel Allende também criou uma fundação com o objetivo de sustentar financeiramente projetos ao redor do mundo que promovam o empoderamento das mulheres, especialmente pela educação.

Isabel também lutou e venceu condições adversas para se tornar a grande  escritora e a encantadora mulher que hoje conhecemos.


Veja as fotos do encontro aqui:

https://livroseraquetes.wordpress.com/2017/02/02/fotos-do-encontro-do-dia-02022017/