Março de 1960

Por Rosete Ramos de Carvalho

Me assustei Ao pisar no teu barro
Tudo vermelho e diferente dos pampas gaúchos

Me apavorei com o cheiro do teu piche
No outro dia era uma pista que me levava ao conhecimento

Me encantei com teu traçado de cidade
E aprendi que casas e ruas eram reconhecidas por letras e números

Me surpreendi com teu crescimento vertiginoso
Num dia eras vila no outro eras cidade

Me entreguei ao teu jeito reto de avenidas e curvo de saídas

Me apaixonei por ti Brasília dos anos 60
Me rendi a ti Brasília dos anos 90
Me incorporei a ti Brasília de 2020 .

Academia

Por Inocência M. Mota

Sinceramente, fazer academia não me atrai. Ficar suando, levantando peso, chorar repetições não é, decididamente, cardápio que goste de consumir. Fazer coisas necessárias, embora não prazerosas, é um, entretanto já incorporado na minha vida.  Por isso, segunda, quarta e sexta lá estou numa sala repleta de malhadoras suando, e eu quase me arrebentando.

Posiciono-me bem atrás, inicialmente com o objetivo mesmo de me esconder. Hoje, a necessidade de me manter invisível desapareceu, mas o lugar cativo permanece.  De lá do meu quadrado, olhar as malhadoras é um estímulo.  Elas não são malhadoras, são malhadas. Todas com o corpo “tudo em cima”.

Observar aquele ballet é bom. Sincronia e determinação, embora umas carreguem dez quilos, outros se esforçam com apenas um.

Fundamentada em Lavoisier, vou copiando uma ou outra malhadora. Não sei olhar no espelho, mas isso é importante, algumas me asseveram. Cheguei à conclusão que sim, e resolvi aprender a enfrentá-lo.

Sobre o colchão, fazendo exercícios para glúteo e pernas, escolho “uma menina”, extraída de dentro do espelho, para acompanhar os movimentos. Pareceu-me que estava fazendo tudo certinho. Decidi segui-la.

Meus pensamentos, viajantes velozes e inconsequentes, vieram e me levaram dali. Quando voltei e encarei a malhadora que estava seguindo, observei que “a menina” fazia tudo errado, em grande afronta ao ballet orquestrado. Tenho que optar por outra, pois essa daí não dá não.

E, entre a alternância dos movimentos, tentando eleger quem eu deveria seguir, percebi para meu desencanto, que “a menina” que fazia tudo errado era nada mais nada menos do que EU MESMA.

Não ria. Essa escolha ocorreu apenas entre duas gotas de suor.

Imersão no universo e na obra de Guimarães Rosa

Por Vera Guimarães Correa

Maio/Junho de 2018

Nasci na boca do sertão, em Sete Lagoas, MG, pertinho de Cordisburgo e Paraopeba, terra de meu pai.
Ainda na infância, ouvia falar de escritor da região, o Guimarães Rosa, nosso parente distante. No curso de Letras, passamos por ele, que achei difícil. Alguns anos e várias tentativas depois, me apaixonei por sua escrita.

Mas a definitiva descoberta aconteceu quando OUVI textos dele. G. Rosa se revela na oralidade.

Nesses links abaixo estão meus primeiros contatos com narração de seus textos, o relato de Dôra Guimaraes sobre essa atividade de contar histórias e um breve registro da vinda dela ao nosso clube de leitura.

Pelas minas e pelos gerais

http://primeirafonte.blogspot.com/2011/08/pindorama-10-0-0-s-55-0-0-w_10.html

https://livroseraquetes.wordpress.com/2013/11/28/guimaraes-rosa-na-voz-de-dora-guimaraes/#more-749

Fiz outras tentativas de OUVIR G. Rosa. Quis ir a alguma Semana Roseana que ocorre todos os anos em julho, lá em Cordisburgo. http://www.museus.gov.br/a-crianca-na-obra-de-guimaraes-rosa/

Mas é difícil encontrar acomodação nessa época e acabei desistindo.

Até que recentemente vi numa página do facebook, a Paleta Cultural, uma “empresa de turismo educacional”, que eles estavam organizando esse evento a que fui. Assisti a alguns vídeos na página, me interessei e me inscrevi. No dia 31 de maio me juntei aos organizadores, professores e cerca de 60 alunos do Sistema Anglo de Ensino, de SP.

A cada dia, saíamos das pousadas para caminhadas eco literárias, parando em lugar significativo e pertinente ao trecho a ser narrado, como, por exemplo, a estação ferroviária, um “retiro” (pequeno sitio), um riacho, uma árvore, uma capela, uma formação rochosa… O grupo de professores era formado por um geólogo, um biólogo, um professor de História, mais um especializado em arte e um professor de literatura.

Nessa altura, já estávamos acompanhados do grupo Caminhos do Sertão, formado por narradores, atores, poetas, cantores e compositores locais, três rapazes e três moças, especializados na obra de G. Rosa. Vejam a página desse grupo no facebook e aqui https://www.google.com/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=5&cad=rja&uact=8&ved=0ahUKEwjqpebD4LrbAhXEhpAKHRaDD3EQFgg8MAQ&url=https%3A%2F%2Fwww.cordisnoticias.com.br%2F2017%2F05%2Fgrupo-caminhos-do-sertao-e-as.html&usg=AOvVaw2-JdcFiixtaTDf6zwvVTWS e em outros resultados de pesquisa no google.

Cada trecho narrado era precedido de uma breve contextualização, ora feita pelo mentor do grupo de narradores, ora por algum professor, dependendo do caso.

Aí começava o encantamento: o violeiro tocava e cantava uma canção alusiva ao texto, seja do nosso cancioneiro ou composta por ele, e entrava o narrador.

Difícil explicar a magia de ouvir G. Rosa. Quem teve a oportunidade de estar com Dora Guimaraes tem uma ideia do que seja. Agora imaginem isso acontecendo no ambiente verdadeiro onde se passaram esses casos! Ríamos e chorávamos!

Ainda tivemos a oportunidade de acompanhar a encenação de SARAPALHA, a mesma que o grupo levou a São Paulo recentemente. https://www.cordisnoticias.com.br/2018/05/caminhos-do-sertao-se-apresenta-em-sao.html

Foram três dias de caminhadas por trilhas, poeirão, estradinhas, subidas e descidas, beira de córregos.

Já me sinto satisfeita e pronta para, daqui para a frente, ler G. Rosa ouvindo as vozes, sotaque e inflexões de crianças, coronéis, vaqueiros, roceiros, romeiros, curandeiros, loucos, fracos, mulheres da-vida, sofridas, perdidas…

Acho que não somos mais os mesmos. Travessia…

 

 

 

 

CORA CORALINA, A DOCEIRA DA CASA DA PONTE

Dia 04 de maio de 2017

Com a presença de aproximadamente 100 pessoas, iniciou-se a reunião na Sede Social do Clube, aberta aos sócios e seus convidados.

O Diretor Cultural, Carlos Santiago, tomou a palavra agradecendo a presença a todos e apresentando o Sr. vice-Comodoro do Iate, Francisco Zenor Teixeira, a Sra. vice-Diretora Cultural, Silvia Frabetti, a Sra. Presidente do Emiate, Nidia Fernandes, a Sra. Marília Leão, representante da Sociedade Literária Livros e Raquetes, a Sra. Sonia Helena, palestrante, e o Sr. Paulo Sales, neto da escritora Cora Coralina.

O Sr. Francisco Zenor fez um breve relato de sua convivência com a escritora, em Goiás Velho, no ano de 1977, quando frequentou a cidade por dois anos e passou a apreciar sua obra literária e  seus famosos doces cristalizados. Naquela oportunidade, ele doou a primeira parte da pavimentação da Rua da Ponte e aprendeu com Cora Coralina a viver com amor no coração.

Marília Leão agradeceu aos sócios e convidados a presença na palestra da escritora e poeta Sonia Helena, integrante da Sociedade Literária Livros e Raquetes do Iate Clube.

Sonia Helena apresentou uma detalhada biografia de Cora Coralina, pseudônimo de Anna Lins dos Guimarães Peixoto Bretas, famosa poetisa e contista goiana. Relatou sua vida desde  infância em Goiás, suas andanças pelos outros Estados até sua volta à casa da Rua da Ponte. Sua vida foi plena de atividades na agricultura, na literatura, no comércio e na fabricação dos famosos doces. Seu pseudônimo  Cora = coração, Coralina = vermelho.  Sonia Helena terminou sua palestra falando sobre o milho, famosa obra de Cora Coralina.

Paulo Sales, neto de Cora Coralina, relatou sua rica convivência com a avó, grande poeta, cronista e contista, cuja vida incentivou o turismo em Goiás Velho. Suas lembranças enriqueceram a palestra da noite.

Em seguida, ele apresentou o trailer do filme sobre Cora Coralina, de Renato Barbieri, que  não pôde comparecer ao evento.

Finalizando, Rosete falou sobre a Sociedade Literária Livros e Raquetes e fez o sorteio de dois livros da autora.

“Minha chegada a Brasília” por Maryse Scianni

Aniversário de Brasília! Me lembro de minha chegada, nos anos de 1966, jovem francesa lançada em uma imensa aventura, que também era um sonho de muitos anos, sonho despertado pela grandeza do país, pelo mistério incomensurável da Amazônia, pela construção desafiadora da nova capital plantada em pleno deserto do cerrado! Brasília! Anos antes, a cidade tinha marcado minha vida, já que um dos temas da dissertação do vestibular tinha sido “Brasília: arte e técnica”. Foi este tema que eu escolhi e me valeu a maior nota 18/20. Como eu gostaria de reencontrar esta ingênua redação dos meus 18 anos, eu que nunca tinha saído do meu país, e praticamente da minha região, mas eu que achava que conhecia o mundo através das minhas leituras e mapas mundi encantados. Mas voltemos a minha descoberta de Brasília.
Era um mês de junho. Tinha saído de Recife em um jeep com uma família amiga que vinha visitar parentes, funcionários na nova capital do Brasil. Eramos 5: a mãe, 2 filhas, o namorado de uma delas, nosso motorista e eu. A viagem tinha sido um caos, por estradas impossíveis, primeiro, afundados em lama, na saída de Recife, depois imersos em poeiras, cheias de buracos a medida que descíamos para o Sul do país .
A ultima noite, no entanto, foi mágica, depois de quilômetros e mais quilômetros rodando sem fim em um solitário deserto estéril. Estavamos esgotados, desencantados, descrentes. Como poderia existir uma cidade aqui? Então, eu tive uma visão. Lá, ao longe, percebi um vago clarão no céu, que competia com as estrelas que se apagavam ao seu contato e desapareciam no horizonte distante. horizonte. O motorista era o único acordado e falamos juntos, baixinho, para não assustar o silêncio da noite: Brasília!
Gritei para os outros, gritei, me lembro, com uma força incomum: Brasília! com a mesma sofreguidão que o marinheiro que descobre a terra depois de semanas de navegação. Todos acordados, paramos o carro na simples contemplação de uma possível miragem, no silêncio absoluto, o rosto e os olhos iluminados de uma alegria profunda. Tínhamos levado 7 dias pernoitando em dormitórios de estrada, comendo arroz e feijão com farinha e tínhamos chegado….finalmente.
Não podíamos irromper, assim de madrugada na casa dos parentes. Houve então uma última noite na terra gelada, em torno de uma fogueira acesa, enrolados em cobertores, e esperando trêmulos o levantar do sol. Esperando entrar finalmente na Capital da Esperanza!

Coragem de ser mulher, de Sôniahelena

Coragem de ser mulher

numa terra que é dos homens

é saber abrir espaços,

é poder se arriscar.

Coragem de, sendo caça,

ir em frente e desafiar

tabus, preconceitos, culturas,

conquistando seu lugar.

Coragem de ser mulher

numa terra masculina

é assumir ter mil faces.

Ser triste para cantar

e meiga para sorrir.

Ser terna para envolver,

ser forte para chorar.

Atrevida e negacear,

submissa ao discordar.

Ser lúcida pra decidir,

ser livre para avançar.

Coragem de ser mulher

numa terra de varões

exige se atrever

ou até se desnudar

e, no entanto, com o querer,

conseguir se preservar.

Coragem de repartir,

coragem de recusar.

Coragem de se integrar,

coragem de competir

sem precisar disputar.

Coragem de ser mulher,

coragem de indagar.

Coragem de investir

no mundo, na vida, nos homens.

Coragem de acreditar,

coragem de compartir,

coragem de conquistar.

Coragem de se guardar

e também se insinuar.

Coragem de seduzir,

coragem até de amar.

Cora Coralina – Poesia de Soniahelena

 

Soniahelena iniciou sua palestra na Associação Nacional de Escritores – ANE, em 24/11/2016,  com a  poesia de sua autoria publicada no livro, Ofício: trovador,  em 2014.  

 

 

CORA CORALINA

sôniahelena

 

Nasci na terra de Cora,

na rua da casa de Cora.

Histórias de ruas e becos

contava-nos o meu avô,

que ia à casa de Cora.

Era amigo da casa.

Da irmã e cunhado de Cora.

Só que não havia Cora.

Tudo isto acontecia

antes de Aninha ser Cora.

 

Cora, conheci mais tarde,

quando eu já lá não morava.

Minha mãe é que contava

as aventuras de Cora,

as travessuras de Aninha,

os seus sonhos de rainha,

devaneio de horas vagas,

que a levaram bem distante,

na busca de novas plagas

e aventuras de alma errante.

 

Durante um longo tempo

dela pouco se ouvia.

O que sonhava, onde vivia,

de que mágoas padecia,

que sucessos alcançava,

o que fazia,  quem amava

eram coisas não sabidas,

talvez até esquecidas,

como esquecida, também,

terá ficado Aninha,

 

até que num belo dia

ela retornou quietinha,

em silêncio, elegante,

sem posura nem rompante.

Voltou à casa da ponte,

bebeu da água da fonte

e, depois de estar fora,

Aninha virou doceira,

poetisa, prosadeira,

e todos souberam de Cora.