MEMÓRIA – crônica de Vera Correa

SENHORA DO TEMPO

MEMÓRIA

Ao envelhecer, ganhamos muito. Na maioria das vezes, ganhamos leveza perante a vida, estabilidade financeira e emocional, ganhamos quilos, tolerância com nossas deficiências e as dos outros, consciência de que as aflições passam.
E perdemos muito: perdemos agilidade, cabelos, joelho, tolerância para barulhos, disposição para sair de casa. Ah, desculpem, essa sou eu. Nem todo mundo é assim.
Uma perda é certa: a da memória. Se bem que tem gente que desde nova não guarda fatos, nomes, circunstâncias, fisionomias e lugares, e se mete em grossas trapalhadas a vida inteira.
Por exemplo, amiga ainda jovem conta que recentemente se encontrou com alguém de quem não conseguia se lembrar totalmente. Para piorar a estranheza do encontro, a pessoa a chamava de Cristina. Minha amiga chegou a falar: “Provavelmente você me confunde com outra, não sou Cristina.”
Ao relatar o fato ao marido, ouviu dele: “Mas você É Cristina! Ana Cristina!” “Oooooooh, sou mesmo! No colégio todo mundo me chamava de Cristina! Ela deve ser do meu tempo de escola. E agora? Passei por louca! Ou metida.”
Hoje em dia, umas amigas dizem que só contam um caso em grupo: uma lembra o onde, outra o quem, outra lembra o como. E assim, de retalho em retalho…(Olha só, lembrei, isso é trecho de música que Nelson Gonçalves cantava na década de 1950.) Mas voltemos ao assunto, antes que ele se perca nos desvãos do cérebro já se desintegrando…
Tudo tem suas vantagens. Outro dia, reunidas depois do tênis, precisando preencher um formulário pela internet, uma amiga menos experiente em tecnologia pediu que uma colega a ajudasse. Na hora dos dados de cartão de crédito e senha, a favorecida os passou em voz alta, sem se importar que as amigas ali ao redor da mesa ouvissem. Diante do espanto de algumas, falou: “Ah, bobagem, ninguém vai guardar mesmo…”
Se algumas vezes rimos dessas peças que a memória nos prega, no mais das vezes ficamos inutilmente irritados. Pra quê? Em lugar de nos aborrecermos, que tal adotarmos rituais, medidas, rotinas e objetos amigáveis? Por exemplo, algumas providências que tenho tomado:
– escolher um gancho, uma gaveta, enfim, um lugar certo para deixar a bolsa quando chego a casa;
– prover o celular de capa espalhafatosa, personalizada, de forma a ser facilmente encontrado (Steve Jobs deve se revirar na tumba com esta sugestão: exigiu meses de trabalho da sua equipe até encontrar o elegantíssimo branco Apple que seus aparelhos ostentam, ou ostentavam, até eu colocar uma capa e um rabicho vermelhos no meu;
– separar os remédios, em caixinhas próprias, por manhã, tarde, noite; uma amiga me conta que a “margarida” já não comporta todos os medicamentos, agora usa uma “torre”;
– usar bolsas providas de compartimentos externos, de fácil acesso, para o objeto mais usado (chave, óculos);
– para quem não use bolsa, caso de uma de minhas irmãs, adotar calças com bolsos, como os modelos cargo;
– adaptar mosquetões à bolsa (no caso, mosquetinhos) para prender chaves, celulares ou algum outro objeto;
– se troco de bolsa para ir a algum evento, na volta retornar o conteúdo para a bolsa costumeira imediatamente.
Já para fisionomias, nomes, impressão de conhecer pessoas, ou para os casos de não ter a menor noção de quem seja aquela a nos sorrir, não sei o que fazer. Talvez usarmos crachá com nome e foto. Mas, atenção, foto de tempos passados, evidentemente, daquele tempo em que ainda éramos Cristina.

6 comentários sobre “MEMÓRIA – crônica de Vera Correa

  1. Também adorei, Maria Célia…. Vera, você me representa!
    Também sugiro um aplicativo fantastico chamado evernote…. nele tudo o que precisamos está acessível, endereços, as ultimas receitas, médicas inclusive… as providências que temos que tomar… Mas precisamos de sorte tb! Porque as vezes esquecemos a senha…. bjs

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