Nome: The Underground Railroad- Os Caminhos para Liberdade |
Iniciamos a reunião com a escolha do livro para o próximo encontro, a ser realizado na primeira quinta feira de maio, dia 3 e coordenado por Vera Correa e Regina Moura. Disputaram a indicação os dois mais votados no WhatsApp, “O Homem mais inteligente do mundo” de Augusto Cury e “Laços”, de Domenico Starnone que foi o vencedor no Segundo turno, na votação presencial.
Após a votação, Andyara apresentou o levantamento dos nossos cinco anos de leitura compartilhada, esclarecendo que o objetivo seria o de oferecer uma reflexão sobre o que estamos lendo e também sobre o que gostaríamos de ler. A proposta é que o debate sobre o nosso perfil como leitoras continuasse no grupo de WhatsApp. Como uma primeira observação, vimos que o que nunca lemos nesses anos todos foi poesia, e o grupo foi consultado quanto ao interesse de incluirmos esse gênero em algum encontro. Foi sugerido que não havendo um apresentador, poderíamos fazer uma roda de poesia, cada uma trazendo um trecho ou uma pequena poesia para compartilhar com o grupo.
A apresentação do livro foi iniciada por Luciana que falou sobre o autor, os prêmios que ele ganhou e também sobre as especificidades dos diversos prêmios de literatura concedidos a escritores.
Depois Rosete trouxe sua contribuição esclarecendo o sentido de “underground” contido no título do livro, trazendo dados históricos, e diferenciando-os da criação ficcional do autor, como por exemplo, a não existência na realidade de uma estrada de ferro subterrânea, mas sim uma rede de apoio mantida por voluntários de forma clandestina. Rosete também nos apresentou dados sobre a participação de médicos em experiências com os escravos, e outras práticas que hoje, fazem parte da história da medicina.
Deixou para a roda de fogo, como chamamos a circulação da palavra entre as participantes, a análise mais aprofundada do livro.
O que predominou foi que a leitura valeu a pena, literalmente!
Os questionamentos e debates foram em torno de controvérsias sobre diferenças entre a crueldade na escravidão americana e na escravidão no Brasil. Conversamos também sobre a continuidade da escravidão mesmo após a libertação dos escravos, e sobre o que perdura nos dias atuais de pessoas vivendo em condições desumanas. Vera Correa trouxe sua contribuição sobre os reais motivos de ordem econômica na campanha abolicionista: Resumo do artigo O DESTINO DOS NEGROS APÓS A ABOLIÇÃO também contribuiu com o interessante texto O dia seguinte à abolição . Renilda enfocou a questão da liberdade sob o vértice filosófico, concluindo com o pensamento de que a liberdade é uma escolha.
Como sempre, o lanche estava delicioso. O encontro foi registrado por Suely, nossa fotógrafa preferida!
Para ver as fotos do encontrohttps://livroseraquetes.wordpress.com/2018/04/12/the-underground-railroad-os-caminhos-para-liberdade-fotos-do-encontro/

Anotações sobre “o dia seguinte à abolição”:
MEU DEUS, MEU DEUS, ESTÁ EXTINTA A ESCRAVIDÃO?
Paraíso do Tuiuti
CARNAVAL DE 2018
Sinopse do enredo

Velha companheira de caminhada da Humanidade.
A ideia de superioridade, divina ou bélica, cobriu-a com o manto do poder.
Pela força ergueu impérios e sustentou civilizações.
Pela alienação justificou injustiças e legitimou a discriminação.
Ganhou nome quando eslavos viraram ‘escravos’ nas mãos dos bizantinos.
Dominou mundo afora, invadiu terras adentro, expandiu a ganância mercantilista e fez da exploração do continente negro seu maior mercado.
Viu senhores mouros do norte africano ostentarem servos de pele alva e olhos azuis mediterrâneos, enquanto negociavam artigos de luxo e peças de ébano.
Cativou povos, devastou territórios, extraiu riquezas do solo e de animais em nome de coroas europeias.
Era rentável negócio até para chefes negros que a alimentavam com gente de sua gente.
Levou uma raça a oferecer-lhe da própria carne.
Separou famílias, subjugou reis, aprisionou guerreiros, reduziu seres humanos a mercadorias.
Calunga Grande muito ouviu os lamúrios dos Tumbeiros abarrotados em sua ordem.
Calunga Pequena muito acolheu os vencidos pela sua sentença.
Plantou seus filhos em nossos canaviais, cafezais e minas de ouro e diamantes.
Lavou com sangue negro o chão das senzalas e os pés-de-moleque das cidades.
Foi senhora de todos os senhores, mãe das sinhás, amante dos feitores.
Marcou com ferro os que ousavam lhe renegar, levantar a cabeça.
Perseguiu os de alma indomável que corriam ao encontro do sonho quilombola.
Quimeras da liberdade de uma raça pirraça fortificadas entre serras e matas que teimavam lhe enfrentar.
Porém, as eras de prática envenenaram até as mais legítimas das lutas quando expuseram suas raízes humanas nos quilombos.
Provocou precisa e astuta fusão entre crenças apadrinhadas pela fé, amparo do rosário das desventuras nesse benedito logradouro.
Coroou santos reis e sagradas rainhas ao som de louvores batucados. Fitas da linha do tempo presente e passado. Espelhos da ancestralidade.
Ouviu os ventos soprados de longe que ressoaram brados iluminados de liberdade pelas paragens brasileiras.
Abolir-te foi palavra de ordem.
Utopia e justiça para uns. Falência e loucura para outros. Caminho sem volta para muitos.
“O homem de cor” ganhou voz pelas ruas, força nos punhos da população, para além das leis parcialmente libertadoras.
Contudo, mesmo enfraquecida, sobrevivia sob a égide dos grandes latifundiários e nas vistas grossas da hipocrisia.
Ferida com a ponta afiada da pena de ouro que a áurea princesa empunhou ao assinar sua redentora extinção, maquinada por uma sedenta revolução industrial de sotaque inglês, caiu.
Uma voz na varanda do Passo ecoou:
– Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão!
Folguedos, bailes, discursos inflamados e fogos de artifício mergulharam o povo em dias de êxtase e glória.
Pão e circo para aclamação de uma bondade cruel, pois não houve um preparo para a libertação e ela não trouxera cidadania, integração e igualdade de direitos.
Mais viva do que nunca, os aprisionou com os grilhões do cativeiro social.
Ainda é possível ouvir o estalar de seu açoite pelos campos e metrópoles.
Consumimos seus produtos.
Negligenciamos sua existência.
Não atualizamos sua imagem e, assim, preservamos nossas consciências limpas sobre as marcas que deixou tempos atrás.
Segue vivendo espreitada no antigo pensamento de “nós” e “eles” e não nos permite enxergar que estamos todos no mesmo barco, no mesmo temeroso Tumbeiro, modernizando carteiras de trabalho em reformadas cartas de alforria.
Jack Vasconcelos
Carnavalesco
Bibliografia consultada:
LOVEJOY, Paul E., A escravidão na África, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.
MOURA, Clovis, Dicionário da escravidão negra no Brasil, São Paulo: Edusp, 2004.
NABUCO, Joaquim, O Abolicionismo, Brasília: UnB, 2003.
NARLOCH, Leandro, Guia politicamente incorreto da história do Brasil, São Paulo: Leya, 2009.
PATTERSON, Orlando, Escravidão e morte social – Um estudo comparativo, São Paulo: Edusp, 2009.
PÉTRÉ-GRENOUILLEAU, Olivier, A história da escravidão, São Paulo: Boitempo, 2009.
PINSKY, Jaime, A escravidão no Brasil, São Paulo: Contexto, 2000.
SALLES, Ricardo; MARQUESE, Rafael, Escravidão e capitalismo histórico no século XIX – Cuba, Brasil e Estados Unidos, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.
VERGER, Pierre, Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos: dos séculos XVII a XIX, 2ª edição, Salvador: Corrupio, 1987.
Resumo do artigo O DESTINO DOS NEGROS APÓS A ABOLIÇÃO
http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&id=2673%3Acatid%3D28&Itemid=23
O que determinou o fim do escravismo foi o avanço da Revolução Industrial e do capitalismo. Não foram razões éticas, humanitárias, religiosas, nem mesmo revoltas, revoluções e motins, ações da sociedade civil. Houve algumas ações humanitárias: gráficos se recusaram a imprimir matérias que propagassem escravidão, jangadeiros se recusaram a transportar pessoas escravizadas, o Exército se recusou a participar de expedições de captura e controle de revoltas.
Inglaterra precisava de matéria-prima e de mercado para os bens da Revolução Industrial. Houve expressivo fluxo de capitais, atraído para as áreas de infraestrutura, como ferrovias, bondes, estradas, e para as áreas de suporte, como bancos, armazéns, casas de crédito e beneficiamento, tudo garantido pelo Estado.
O modelo escravagista ficou caro. Imigrantes da Europa empobrecida foram chamados e receberam incentivos e recursos para substituir e se mostraram mais baratos que mao-de-obra escrava. “O escravo corresponde a um capital fixo cujo ciclo tem a duração da vida de um indivíduo(…)”
Mão-de-obra imigrante era de baixíssimo custo, financiada pelo Estado, e parte da arrecadação fiscal de todo o País foi desviada para financiamento da imigração, destinada ao Sul e Sudeste, acentuando desequilíbrios regionais que perduram até hoje.
Lei de Terras 1850
A Lei de Terras foi aprovada no mesmo ano da lei Eusébio de Queirós, que previa o fim do tráfico negreiro e sinalizava a abolição da escravatura no Brasil. Grandes fazendeiros e políticos latifundiários se anteciparam a fim de impedir que negros pudessem também se tornar donos de terras.
Enquanto isso, os imigrantes europeus eram subsidiados para adquirir terras.
“Art. 18 – O Governo fica autorizado a mandar vir anualmente à custa do Tesouro certo número de colonos livres para serem empregados, pelo tempo que for marcado, em estabelecimentos agrícolas, ou nos trabalhos dirigidos pela Administração pública, ou na formação de colônias nos lugares em que estas mais convierem; tomando antecipadamente as medidas necessárias para que tais colonos achem emprego logo que desembarcarem.”
Raízes do racismo. Teorias científicas e “científicas”. Branqueamento da população.
Países europeus passam a ser centros de poder imperial, colônias na África e na Ásia. Nó teórico e ético: como conciliar ideais da Revolução Francesa subjugando povos e culturas?
Teorias racialistas justificam superioridade intelectual, física e moral e legitimam a superexploração de outras etnias. Bernier, Lineu, Darwin, Gobineau, Chamberlain.
Ex-cativos se tornaram imenso exército de reserva, descartável e sem força política.
Projeto social de integração da população escravizada foi apenas um chamarisco na fase pré-abolição.
A base da campanha estava longe de ser humanitarismo solidário ou busca de reformas sociais democratizantes.
O novo regime, a República, não viera para possibilitar mobilidade social, mas para manter intocada uma estrutura elitista e excludente.
Enquanto isso…
ex-cativos se tornaram imenso exército de reserva, descartável e sem força política.
… os ex-escravos somaram-se à população pobre: desocupados, sem trabalho, velhos que não podiam trabalhar, mulheres sem apoio de parentes, trabalhadores temporários, mendigos, crianças abandonadas. Aumento da violência. Criminalização dos pobres e pretos.
Racismo
racismo
substantivo masculino
0. 1. conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.
0. 2. doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras.
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