Nina George por Maria Célia

Nina George, escritora, jornalista e professora, nasceu em 30 de agosto de 1973 (43 anos), em Bielefeld –  Alemanha).

Começou a trabalhar a partir dos 14 anos em vários estabelecimentos de alimentação

Em 1991, abandonou a escola antes de terminar o ensino médio.

Começou a escrever em 1993 como jornalista freelancer e colunista de revistas como a Cosmopolitan, Penthouse, TV Filme, Frau im Trend.

Escreve thrillers, romances, artigos, contos e crônicas.

É mais conhecida como autora de “A Livraria Mágica de Paris” (The Little Paris 33Bookshop), um best seller internacional que foi traduzido em 33 idiomas a partir de 2015 e foram vendidas mais de 500.000 cópias. Permaneceu mais de um ano nas listas de livros mais vendidos da Alemanha e foi best seller na Itália, na Polônia, na Holanda e nos Estados Unidos, figurando várias semanas na lista do New York Times. Foi classificado entre os dez melhores romances na lista da revista Spiegel.

É uma novela semi-autobiográfica escrita após a morte de seu pai.

A primeira publicação foi em alemão como “Das Lavendelzimmer” em 2 de maio de 2013.

Publicou 26 livros (romances, mistérios e não-ficção), mais de uma centena de contos e cerca de 600 colunas em jornais.

Trabalhou como repórter policial, colunista e editora-chefe de uma ampla gama de publicações, incluindo Hamburger Abendblatt, Die Welt, Der Hamburger, bem como TV Movie e Federwelt.

Nina George é casada com o escritor Jens J. Kramer e divide seu tempo entre Hamburgo e a Bretanha.

É membro, dentre outras associações:

– do PEN International (promove a literatura e sua liberdade de expressão. Abrange mais de 100 países. É uma organização não-política reconhecida pela UNESCO. É conselheira de assuntos relacionados com os direitos autorais.);

– da Das Syndikat (associação de autores de crimes de língua alemã);

– da Associação dos Autores Alemães (VS);

– da Associação de Autores de Hamburgo (HAV);

– da BücherFrauen (Women in Publishing);

– da IACW / AIEP Of Crime Writers;

– da GEDOK (Associação de artistas femininas na Alemanha), e

– do PRO QUOTE e Lean In.

Faz parte da diretoria do Conselho de Escritores e Tradutores dos Três Mares (TSWTC), cujos membros vêm de 16 países.
Em 2014, pronunciou o discurso de abertura em Berlim, na Conferência dos Escritores Alemães, para 140 escritores presentes.

Ela ensina a escrever na Literaturbüro Unna, Alsterdamm Kunstschule, Wilhelmsburger Honigfabrik, onde ela treina jovens, adultos e autores profissionais.

Ela se mudou para Concarneau, na França, onde agora mora com seu marido.

 

Livros como Nina George

2013 – A Livraria Mágica de Paris

2010 – O Jogador da Lua, Knaur- premiado com o Delia 2011 – prêmio literário para o melhor romance alemão do ano anterior pelos Amigos da Literatura

2008  -Como é o Inferno,

2005 – O Vocabulário dos Homens

2003  -O Caminho do Guerreiro

2003 – Jack, Rainha

2001 – Nenhum Sexo, Nenhuma Cerveja

 

Livros com o pseudônimo de Anne West – sobre questões de amor, sexualidade e erotismo

2009 –  O Que as Mulheres Sonham e Como Obtê-lo

2009  – Sexo para Esquiadores Avançados

2009 – Sentindo – o Sentimento

2009 – Sexo Absoluto

2007 – Deusas do Sexo Manual

2006 – Sexo de Um Dia

2006 – O Efeito de Venus

2004 – Histórias Sujas

2003 – Kamasutra Without Hernia, como co-autor.

Por que os Homens São tão Rápidos e as Mulheres só Fingem,

1998 – As Boas Meninas Fazem na cama – As Más, em Toda Parte.

 

Livro como Nina Kramer (seu nome de casada)

2008 – A Life Without Me – sobre a saúde reprodutiva das mulheres

 

Livros com o pseudônimo de Jean Bagnol – escreveu novelas policiais com seu marido

2015 – Comissário Mazan e o Anjo Cego

2013 – Comissário Mazan e os Herdeiros do Marquês

 

Em uma entrevista ela disse:

” Escrevo para entender melhor o que penso, para ver o mundo com mais clareza – e porque é como exprimo o meu desejo de criar, de mudar o mundo, o meu amor pela humanidade. Escrever para mim é uma maneira de me comunicar em todas as direções: comigo mesma e também com outras pessoas. É também traduzir as profundezas escuras da experiência humana em histórias para que outros possam aprender algo como tolerância e como se ver mais claramente.”

“É cada vez mais importante para os autores se envolverem nos dias de hoje. O movimento em direção ao conteúdo digital fez com que nosso trabalho perdesse valor. As taxas fixas, os contratos de compra total, a pirataria de livros eletrônicos e o preço de dumping levaram a sociedade a depreciar nossas conquistas, assim como o uso do nosso trabalho pelo Google Books e outros, o que é claramente ilegal de acordo com a legislação alemã. Não só a sociedade, mas também os políticos. As pessoas usam o nosso trabalho sem fornecer compensação adequada nem mesmo defender nossos direitos.”

“É por isso que estou lutando: impedir que nosso trabalho seja valorizado apenas com base no preço.”

Tel/fax 0049 3222 4277 353 – http://www.facebook.com/jeanbagnol

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Nome: O amante japonês
Autor: Isabel Allende
Ano: 2016
Data do encontro: 02/02/2017
Apresentação por: Marília, Andyara, Andreia e Teresa Lírio


Encontro de 2/02/2017

Para ver apresentação clique aqui:  O amante japonês

Protagonismo, Repetições e Transformações.

Sobre o livro O Amante Japonês, de Isabel Allende

Teresa Lirio


Em uma entrevista perguntaram a Isabel Allende de onde ela tirou força para escrever o seu livro Paula. Ela falou bastante da filha, de sua dor, do quanto se expôs no livro e disse que na verdade foi o inverso: escrever lhe deu forças.

Falando de seu processo criativo, disse ter muitas sementes, algumas florescem, outras não. Vai se interessando por histórias, ouvindo as pessoas, e de repente surge um encontro fértil entre o que ouviu com algo que tenha significado especial para ela. Daí nasce um novo livro.

Achei muita semelhança entre o seu processo criativo e o processo de produção dos sonhos. Somos todos escritores e cineastas. Na teoria psicanalítica, fantasias e angústias, enfim, conflitos, constituídos pelo desejo em seu enfrentamento com a realidade, são os protagonistas dos sonhos. O processo de elaboração onírica, transforma os conteúdos latentes em conteúdos manifestos, resultando na narrativa do sonho. Muitas vezes, um sonho é seguido por outro, aparentemente diferente, mas motivado por aspectos inconscientes semelhantes. Como se da primeira tentativa de elaboração resultasse uma aproximação maior com a dinâmica inconsciente, que vai insistindo e encontrando menos resistência em se expressar.

Nos sonhos, os aspectos inconscientes dão o tom do conteúdo latente, já nos escritos ou filmes, embora sempre possa haver algo inacessível, os fatores inspiradores podem ser do conhecimento do escritor.

No momento da escrita do Amante Japonês, Isabel estava as voltas com o envelhecimento, e, com muitas interrogações sobre o amor na maturidade, interessada em entender como o amor acaba, e, se pode haver paixão na velhice. Seu casamento havia acabado, estava muito carente e quis escrever uma história de  amor…

Escreveu uma estória com duas tramas que se cruzam. Um casal mais velho e outro mais jovem. Estórias separadas por décadas e por diferenças sócio/econômicas/culturais, mas com semelhanças significativas.

Que fatores comuns movem essas tramas? Quais os protagonistas? Alma e Ichimei? Alma Belasco e Irina Balizi?

Em 1939 – início da segunda Guerra – Alma Belasco foi mandada pelos pais para América devido ao perigo do nazismo e foi acolhida pelos tios em São Francisco.  Enamorou-se do filho do jardineiro, Ichimei Fukuda.  Irina também deixa sua cidade e sua família e sofre com a violência da guerra.

Os pais de Alma foram mortos pelo Nazismo. Irina também perdeu os pais, não por morte, mas pela perda da função de cuidadores e protetores. Também eles foram atingidos pela violência da guerra e pela miséria de vida que levavam e que os tornou embotados afetivamente. Ana foi protegida, Irina foi abusada, mas as duas conservaram a capacidade amorosa.

Nas duas histórias, temos o desafio de vencer a diferença socioeconômica. As duas têm seus segredos; aliás,  a autora diz que o segredo e o suspense são fundamentais, e que nessa estória todos tem os seus segredos.

Aparentemente Alma e Irina  vivem um amor impossível…. Alma consegue reverter essa impossibilidade por sua determinação e liberdade interior. Irina também tem seus recursos; sua força de vida fêz com que apesar de tudo o que sofreu, continuasse amorosa, alegre, curiosa, enfim cheia de vida e fosse a pessoa cativante por quem Seth se apaixonou.

Comparei essas duas histórias a sonhos de uma mesma noite, nos quais os temas da vida de Isabel Allende, os assuntos que importam a ela têm o protagonismo.  Diferentes narrativas, com os mesmos elementos motivacionais.

São histórias de superação, de valorização da tenacidade na luta contra a adversidade, contra os preconceitos, e contra a violência. Em entrevistas a autora expressa seu horror a impunidade, e conta de seu engajamento na luta pelos direitos das mulheres e pela afirmação da liberdade.

Aliás, todos esses valores já são antecipados na epígrafe em homenagem a Soror Juana de la Cruz.

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Soror Juana nasceu dia 12 de novembro do ano de 1651 na fazenda de San Miguel de Nepantla, próximo à cidade de Amecameca, filha de pai basco e mãe mexicana.

Transcrição de um trecho do texto de Roberto Pompeu de Toledo publicado no Site do Wellignton Farias

“Ela era bela e era freira. Inteligente e admirada. Ser bela e freira, eis uma combinação que intriga e encanta. Era requisitada e festejada, tinha amigos nos altos círculos e, além do mais, era poeta. Principalmente, era poeta. E não uma poeta qualquer, mas autora de uma obra que acabou por consagrá-la como um nome importante da literatura em língua espanhola. “Ouve-me com os olhos/já que estão tão distantes os ouvidos”, escreveu num poema a um amigo ausente. “Ouve-me surdo, pois me queixo muda. “ Ela amava os paradoxos, os jogos com as palavras e os conceitos, e tinha um domínio de virtuose sobre o ritmo da frase. A personagem em questão é sóror Juana Inés de la Cruz, figura importante da literatura do México, onde nasceu e viveu entre 1648 e 1695. Três séculos depois, outra figura importante da literatura do México, o poeta e ensaísta Octavio Paz, falecido em abril último, ganhador do Prêmio Nobel em 1990, fez dela o tema de um livro publicado no original em 1981 e agora lançado no Brasil, Sóror Juana Inés de la Cruz — As Armadilhas da Fé (tradução de Wladir Dupont; Siciliano; 709 páginas; 56 reais).

….

Da menina Juana Inés sabe-se pouco. Amava os livros e a certa altura acalentou o projeto de vestir-se de homem para credenciar-se ao privilégio masculino que era frequentar a universidade. Acabou num convento, o que configura a primeira das duas grandes interrogações de sua existência. Por que resolveu ser freira? Por que, sendo bela e evidenciando mais vocação para a vida social do que para a religiosa, se decidiu pelo convento? A segunda interrogação tem origem lá bem adiante, quando, escritora aclamada em todo o mundo hispânico, decide não mais escrever e entrega-se inteiramente à reserva da vida religiosa. Por quê? Em torno dessas duas interrogações, Octavio Paz constrói seu livro”.

 Livro de Octávio Paz

Ao Introduzir o Romance O Amante Japonês com essa epígrafe, trazendo para a cena Soror Juana, Isabel já nos antecipa que seu livro tratará da luta para vencer a opressão e o preconceito, e do direito a buscar a liberdade e a felicidade.

Além de levar essa luta tocando as pessoas com os seus personagens e histórias, Isabel Allende também criou uma fundação com o objetivo de sustentar financeiramente projetos ao redor do mundo que promovam o empoderamento das mulheres, especialmente pela educação.

Isabel também lutou e venceu condições adversas para se tornar a grande  escritora e a encantadora mulher que hoje conhecemos.


Veja as fotos do encontro aqui:

https://livroseraquetes.wordpress.com/2017/02/02/fotos-do-encontro-do-dia-02022017/

 

O Amante Japonês, Isabel Allende – Apresentação de Teresa Lirio

ENCERRAMENTO DAS REUNIÕES DE 2016: 2016 Acaba “Chorando Baixinho”

DATA: 08/12/2016

ANIVERSARIANTES: Conceição, Luzimar, Marilena e Rosete.”

Rosete inicia falando sobre as reuniões da Sociedade Literária Livros e Raquetes, destacando que esta noite seria a quarta festa de encerramento do ano. Seria uma noite diferente, porque não era sobre a leitura de um livro.

O título 2016 Acaba “Chorando Baixinho” refere-se ao grupo de Choro dos alunos da Escola Rafael Rabelo. Os rapazes são a prata da casa: Luís, com seu bandolim; Victor, com seu cavaquinho; Artur, com seu violão de 7 cordas e Augusto, com seu pandeiro.

O Choro e a Literatura brasileira. Vera discorreu sobre a origem do choro, que surgiu no final do século XX, no Rio de Janeiro, originário da musica africana “lundu”. Mais tarde, passou a fazer parte dos saraus da burguesia carioca.  Veja a apresentação da Vera na íntegra aqui.

A primeira grande figura apresentada foi Francisca Edwiges Neves Gonzaga, a famosa Chiquinha Gonzaga, grande compositora e maestrina brasileira.(1847-1935)

Musica : Corta Jaca.

Ernesto Nazaré, pianista e compositor brasileiro, tocava em cinemas para se manter. Machado de Assis baseou-se em sua vida no livro “O Homem Célebre”. ( 1863-1934)

Musica: Brejeiro, Apanhei-te Cavaquinho.

José Gomes de Abreu, o famoso Zequinha de Abreu, nasceu em Santa Rita de Passa Quatro. Tocava flauta e clarinete. Ficou célebre pela sua música “TicoTico no Fubá”,que ficou conhecida mundialmente com a interpretação de Carmem Miranda.(1880-1935)

Musica: Tico Tico no Fubá

Pixinguinha, apelido de Alfredo da Rocha Viana Filho, foi o primeiro maestro arranjador e músico profissional. Tocava cavaquinho, flauta e saxofone. Fazia parte dos “Oito Batutas”que fizeram uma turnê na Europa, ficando seis meses em Paris.Foi homenageado com uma estátua no centro do Rio de Janeiro. (1897-1973)

Musicas: Carinhoso, Lamento, Ingênuo e Naquele tempo.

Jacob Pick Bittencourt, mais conhecido como Jacob do Bandolim, foi compositor e bandolinista de Choro. Ele gostava tanto de doces que não cobrava cachê nos saraus, contanto que servissem muitos doces. Faleceu aos 38 anos, pois era hemofílico. ( 1918-1969)

Músicas: Noites Cariocas, Vibrações, Doce de Coco e Santa Morena.

Waldir Azevedo, nasceu no Rio de Janeiro e foi músico e compositor. Tocava bandolim e cavaquinho, sendo considerado o Rei do Cavaquinho e o maior músico instrumental.Veio para Brasilia em 1971. Sua grande composição “Brasileirinho”é conhecida no mundo inteiro. (1923-1980).

Música: Brasileirinho.

O grupo “Chorando Baixinho”foi aplaudido entusiasticamente após todas as músicas tocadas.

Para ver a apresentação clique aqui: acaba chorando baixinho

Em seguida, passou-se ao lanche proporcionado pelas aniversariantes. Devemos ressaltar a organização impecável do grupo que trabalhou para este evento.

Veja as fotos do encontro aqui:

https://livroseraquetes.wordpress.com/2016/12/12/fotos-do-encerramento-do-ano-de-2016/

Choro e Literatura – Apresentação de Vera Correa no evento – 2016 acaba “chorando baixinho”

CHORO E LITERATURA

O QUE SE ESCREVIA NO SÉC. XIX? QUEM LIA?
O QUE FOI O SÉC. XIX?
http://www.rio-turismo.com/historia/seculo-18.htm

http://www.rio-turismo.com/historia/seculo-19.htm
Até 1808, Colônia. Até aqui, atividade econômica centrada na agricultura e na mineração. Ensino apenas básico. Cunho religioso.

1808 – Corte portuguesa veio para Rio de Janeiro.
. Administração e serviços jurídicos
. Abertura dos portos
. Imprensa Régia
. Bandas de música junto a irmandades religiosas e a regimentos (muitos chorões se formaram em bandas)
. Criação de ensino superior
. Missões artísticas e científicas
. Crescimento demográfico
. Formação de uma classe média
. Urbanização acelerada

1821 – Retorno de D. João VI a Portugal
. Lutas populares pela independência
http://www.m.vermelho.org.br/noticia/193156-1
1822 – “Independência ou Morte!”
. Outros jornais
. Romancistas publicam nos jornais (os folhetins)
. Alfabetização cresce
. Teatro musicado/teatro de revista (C Gonzaga, A Azevedo, C Gomes, Martins Pena)
. Movimentos pela abolição do trabalho escravo

1888 – Abolição
. Substituição atividades dependentes do trabalho escravo
. Investimentos em infra-estrutura
. Novas atividades.
. Novas profissões

1889
. Baile da Ilha Fiscal
. Proclamação da República.

ESCOLAS LITERÁRIAS
ROMANTISMO

G Dias, A de Azevedo, C Alves, J Manoel Macedo, J de Alencar, B Guimarães, F Távora e M de Assis.

REALISMO e NATURALISMO
M de Assis (de novo), R Pompeia, Arthur Azevedo, A Caminha

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escolas_da_literatura_brasileira

https://www.google.com.br/amp/www.infoescola.com/literatura/escritores-do-realismo/amp/?client=safari

http://m.suapesquisa.com/romantismo/principais_escritores_brasil.htm

Século em que se buscou a identidade nacional: política, literária, musical.
Foi neste ambiente que vicejou o choro, uma genuína expressão da alma brasileira.

Ferreira Gullar

Ontem, dia 4/12/2016, faleceu o poeta Ferreira Gullar.

 

Metade

de Ferreira Gullar

 

Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,

como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.

E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,

mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

e que o convívio comigo mesmo

se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,

um doce sorriso,

que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso

mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.

Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,

e a outra metade…

também

 

 

Traduzir-se

de Ferreira Gullar

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

( Ferreira Gullar )

 

 

Cora Coralina – Poesia de Soniahelena

 

Soniahelena iniciou sua palestra na Associação Nacional de Escritores – ANE, em 24/11/2016,  com a  poesia de sua autoria publicada no livro, Ofício: trovador,  em 2014.  

 

 

CORA CORALINA

sôniahelena

 

Nasci na terra de Cora,

na rua da casa de Cora.

Histórias de ruas e becos

contava-nos o meu avô,

que ia à casa de Cora.

Era amigo da casa.

Da irmã e cunhado de Cora.

Só que não havia Cora.

Tudo isto acontecia

antes de Aninha ser Cora.

 

Cora, conheci mais tarde,

quando eu já lá não morava.

Minha mãe é que contava

as aventuras de Cora,

as travessuras de Aninha,

os seus sonhos de rainha,

devaneio de horas vagas,

que a levaram bem distante,

na busca de novas plagas

e aventuras de alma errante.

 

Durante um longo tempo

dela pouco se ouvia.

O que sonhava, onde vivia,

de que mágoas padecia,

que sucessos alcançava,

o que fazia,  quem amava

eram coisas não sabidas,

talvez até esquecidas,

como esquecida, também,

terá ficado Aninha,

 

até que num belo dia

ela retornou quietinha,

em silêncio, elegante,

sem posura nem rompante.

Voltou à casa da ponte,

bebeu da água da fonte

e, depois de estar fora,

Aninha virou doceira,

poetisa, prosadeira,

e todos souberam de Cora.