O Fio da Vida, Kate Atkinson
Contribuição de Teresa Lirio para o debate de 5/04/2017
Convidada a falar sobre os aspectos emocionais, destaco inicialmente as emoções suscitadas pela leitura de um livro aberto a múltiplas interpretações. Acho que O Fio da Vida, de Kate Atkinson, desperta nos leitores a angústia diante da não compreensão e da impossibilidade de organizar os acontecimentos dentro de uma lógica racional. Podemos suportar o “não saber” e nos enriquecermos, como é o propósito dessa reunião, com suposições, imaginações e possibilidades aventadas sob os mais diversos vértices de observação. Poderemos também aderir a alguma teoria e nos convencermos de termos desvendado os enigmas dessa trama. Eu proponho ficarmos no terreno das múltiplas possibilidades procurando expandir significados a partir de olhares diversos.
Nesse sentido podemos seguir a própria autora, e considerar suas citações, na epígrafe, como fios condutores de sua motivação para escrever essa trama.
Primeira citação – Nietzsche: O tempo não é uma sequência de eventos determinados pelo evento anterior. O tempo é infinito e cíclico, portanto passível de retorno. Essa primeira citação se refere ao princípio do eterno retorno. “ Se você tivesse que viver tudo, uma e mais vezes incessantemente, o que sentiria? Recorrendo a imagem de um portal chamado “Instante”, ele descreve uma situação em que se juntam dois caminhos que duram uma eternidade: um que corre para trás e outro que corre para diante. No instante do presente, está condensada toda a eternidade; por isso é preciso nos apropriarmos de nossas escolhas e diferenciar o que vale a pena ser vivido. Não há para Nietzsche uma vida após a morte, tem que ser aqui e agora.
Segunda citação – Platão/Heráclito? “Todas as coisas se movem e nada permanece imóvel”. Ao tentar dar conta do permanente e do transitório, Platão criou muitas teorias. Mundo sensível/ mundo das ideias. Corpo/alma. Metempsicose e Reminiscência. Imortalidade da alma. Para que alguém recorde algo, é necessário que antes tenha aprendido. Aquilo que recordamos foi aprendido numa outra existência, na qual a alma contemplou as ideias. Platão afirma deste modo que a alma preexiste ao corpo e sobrevive à sua morte.
Terceira citação – E se tivéssemos a possibilidade de fazer tudo de novo e de novo até afinal fazermos certo? (A experiência como fonte de aprendizagem e transformação)
Na estória contada por Kate Atkinson, alguns “instantes”, como propunha Nietzsche, determinavam o desenrolar dos acontecimentos futuros. Mas, as situações vividas se repetiam e Úrsula podia mudar os instantes decisivos. Assim, ela parecia viver muitas vidas…
O que chama a atenção, desde o início, é a extrema sensibilidade de Úrsula. Desde bem pequena ela era diferente. Registrava o mundo sensorial nos mínimos detalhes. Pressentia os acontecimentos e tinha tal sintonia e empatia com o outro que sentia na pele as dores de quem amava. Essa mesma sensibilidade que abre para a intuição e para a comunicação sem palavras, também pode resultar na apreensão de algo da realidade que não pode ser suportado. Todos temos um escudo protetor, seja pela imaturidade na infância, seja por defesas construídas, pois a realidade pode ser intolerável, gerando cisões da personalidade. Muitos estados patológicos resultam de uma exposição a algo que foi percebido precocemente. Nesse sentido a potencialidade se transforma em adoecimento.
Úrsula seria uma pessoa de extrema sensibilidade, com intuições e capacidade imaginativa para viver em sua mente as múltiplas realidades, ou os relatos correspondiam a delírios e perturbações psiquiátricas? Ela pressentia o que iria acontecer no futuro, como um fenômeno dejà vu? Por uma vivência anterior, tipo reminiscência e metempsicose como pensava Platão? Por vidas passadas? Por algum tipo de patologia cerebral? Como um fenômeno premonitório como defende a parapsicologia? Por uma comunicação de inconsciente para inconsciente que se expressa como intuição? Ou poderia estar imaginando o que poderia ter acontecido, criando versões não vividas, de situações apavorantes ou desejadas? Tipo fantasias, sonhos? E, na tentativa de elaborar algo traumático as angústias iam e voltavam e voltavam?Podemos pensar ainda nas complicadas teorias da física quântica, nas dobraduras do tempo…
Afinal como podia viver em um tempo não linear, e em espaços múltiplos e excludentes? Viveu a segunda guerra na Alemanha ou na Inglaterra? Essas questões mantêm o suspense e deixam o leitor ligado na leitura até o fim; fazem parte da estratégia do autor, mas em minha opinião não podem ser respondidas.
Acho que a estória nos captura também por acenar com a possibilidade de fazer tudo de novo e de novo, até acertar! Como seria maravilhoso ter uma segunda chance…poder consertar, reparar, evitar os acontecimentos dolorosos…. Esse desejo, o de não ter que se haver com o irreversível e o irreparável da dimensão trágica da existência, habita em todos nós. Aprendemos a duras penas que esse é um desejo inalcançável, mas, com Úrsula essa ilusão retorna irresistível e, momentaneamente, aliviados, lhe damos as boas vindas.