O Fio da Vida – Contribuição de Mário C Correa

I Guerra Mundial 1914/1918

Conferência de Paz em Paris

Tratado de Versalhes

Salão dos Espelhos do Palácio de Versalhes – 28 jun 19

 A minha participação neste encontro será conversar um pouco sobre o Tratado de Versalhes.

O Tratado foi o documento elaborado pelos países em guerra combinando o seu final e quais seriam as obrigações que caberiam a cada Estado beligerante.

 Como se inicia e se encerra uma guerra

Um adágio diz que “todos sabem como começa uma discussão, mas ninguém sabe como ela vai acabar”. É o caso de uma guerra!

O seu início é:

– Declaração formal de Guerra motivada por interesses político-estratégicos e/ou econômicos (conquista de novos mercados, rotas comerciais, expansão territorial, busca de matérias primas, etc.)

Ela acaba quando:

– É feito um Acordo de Paz (quebra da vontade de lutar do adversário por falência de sua estrutura política e incapacidade de reação de suas forças militares).

Até hoje há países tecnicamente em guerra como as Coreias do Sul e do Norte, v.g.

O Tratado de Versalhes tratou disso.

Participantes

– Vencedores da I Guerra Mundial (Grã-Bretanha, França, Rússia, Itália, Japão e EUA) X Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Império Otomano e Bulgária.

– Assinaram 32 nações. As principais foram:

Alemanha, Chanceler Hermann Müller;

França,1º Ministro Clemenceau;

Grã-Bretanha, 1º Ministro Lloyd George,

EUA, Presidente Woodrow Wilson

Falando um pouco de cada envolvido sem entrar em muitos detalhes:

Tríplice Aliança

– Império Alemão (Reich) – Nação proeminente, envolvia as demais por suas atitudes hegemônicas e expansionistas.

– Império Austro-húngaro – sob forte influência do Reich, pivô do início do conflito por ter seu herdeiro, Príncipe Francisco Ferdinando, sido assassinado na Sérvia.

– Itália – retira-se da Aliança, antes da guerra, por não concordar com a decisão do Império Austro-Húngaro de invadir a Sérvia.

Tríplice Entente

França – maiores prejudicadas, a França e a Bélgica, palcos das batalhas de Guerra de Trincheiras, tiveram o supremo desgaste humano, sua infraestrutura destruída e quase 2 dos 10 milhões de vidas perdidas entre militares e civis. Principal motivo pelo qual a França era menos complacente na formulação das imposições feitas pelo tratado aos derrotados. Escolheu o mesmo Palácio do Acordo de 1871 (Guerra Franco-Prussiana) quando a França teve que ceder a Alsacia e a Lorena para o Império Alemão.

– Império Britânico – vinha do período vitoriano para uma gestão menos progressista com Eduardo VII. As potências europeias primavam pelo rearmamento e a busca de novos mercados mundiais e matéria prima. Era latente o receio da competição desenvolvimentista com a Alemanha. O Reino Unido tinha o maior poder naval europeu e buscou acordos defensivos com a França, e a Rússia formando a Tríplice Entente.

Estados Unidos

Despontando como uma liderança mundial, os EUA mantiveram-se, enquanto puderam, em sua zona de conforto adotando uma política de “Portas Abertas”, priorizando seus interesses econômicos, mas favorecendo a Tríplice Entente.

Com a saída da Rússia do conflito, a possibilidade do avanço alemão sobre o território francês e o ataque alemão aos navios americanos, os EUA declararam guerra à Tríplice Aliança.

O papel do Presidente Woodrow Wilson para o final do conflito mundial – proposta dos “Quatorze Pontos”. Propunha as bases para a paz com a reorganização das relações internacionais ao fim da Primeira Guerra Mundial, e o pacto para a criação da Sociedade das Nações. Advogava uma “Paz sem Vencedores” com sanções mais amenas aos vencidos. A França foi irremediavelmente contra.

O Congresso americano não ratificou o Tratado de Versalhes e os EUA, posteriormente assinaram acordo em separado com a Alemanha.

Fim do Conflito Armado

Os seguintes acontecimentos aceleraram o encerramento da já longa guerra (1914/1918):

Entrada dos EUA na guerra; toda a potente indústria americana a favor e seu efetivo militar;

Saída da Rússia (Revolução Bolchevista de 17); forçou a decisão estratégica americana em participar do conflito;

Abandono do Kaiser e o controle dos militares; reconhecimento da incapacidade de permanecer combatendo o adversário;

Situação econômica frágil dos beligerantes e consequente instabilidade interna principalmente dos Impérios Centrais e o

Extremo sacrifício e perdas humanas.

Assim foi assinado o Armistício de Campiège, em 1918 firmando o fim do combate.

Principais condições impostas pelo Tratado de Versalhes

– Responsabilidade única da Alemanha por todas as perdas e danos.

– Cessão territorial para vizinhos (França, Bélgica, Dinamarca, Polônia e Checoslováquia, entre outros) e perda de todas as colônias de além mar.

– Reparações de guerra (indenização de 33 Mi US$, ou 132 bilhões de marcos – cifras finais). Em 2010 foi paga a última parcela de 70 milhões de euros (R$ 162,6 milhões) encerrando uma história que durou quase 100 anos

– Manutenção da supremacia militar (Exército reduzido), exigência de governos democráticos com o banimento das tradicionais elites reais.

Ambiente pós-guerra

Como consequência:

– A República de Weimar surge pela entrega do poder da elite militar alemã ao Partido Democrata que assume os ônus de negociar a paz. Após período de instabilidade seguindo um curto período de relativa estabilidade, a crise econômica mundial (Crise de 1929) dá margem aos grupos insatisfeitos de encontrarem o melhor terreno para sua expansão e a possibilidade do crescimento do Partido Nazista.

– As imposições do tratado de Versalhes foram consideradas inaceitáveis (“Diktat”) pela direita alemã. O clima de fracasso e descontentamento do povo alemão e a humilhação contribuiu para a queda do governo em 1933 e ascensão do nazismo (Hitler) e criando condições para a eclosão da II GM

– Liga das Nações (abril de 1919 a 1946) precursora da ONU, foi criada no Tratado de Versalhes para arbitrar disputas internacionais e evitar futuras guerras. O sonho americano era a sua possibilidade de negociar Acordos de Paz entre seus participantes.

– Foi o fim da hegemonia do capitalismo e o início do socialismo sendo colocado em prática. Época de tensões sociais e políticas agravada com a ”Grande Depressão de 1929”.

E o Brasil?

– Mesmo sendo um País agrícola e pouco industrializado, foi o único representante latino-americano a entrar na I Guerra Mundial (Declaração de Guerra em outubro de 1917).

– Participou das operações nas seguintes operações:

– patrulha naval das costas brasileiras;

– ao integrar uma missão médica no Teatro de Operações europeu;

– ao enviar aviadores da Marinha e do Exército, junto à Força Aérea Real Britânica;

– integrando uma Esquadra Naval de patrulha no Mediterrâneo e,

– formando um contingente do Exército para atuar com o Exército francês.

– Em ressarcimento às suas perdas de guerra, obteve indenização pelo café perdido em embarcações afundadas e em armazéns em diversos portos marítimos e tomou posse de cerca de 70 navios alemães apreendidos em portos brasileiros.

– Com o encerramento da Guerra e o crescimento dos movimento sociais em voga no mundo, aqui também surgiram grupos e manifestações de inspirações diversas.

Para encerrar, como curiosidades:

– A família imperial brasileira, em exílio após a Proclamação da República, fato relativamente recente à época, pertencia à Casa de Habsburg, “Casa de Áustria”, família nobre europeia, cuja dinastia foi dissolvida após IGM. Maria Leopoldina, mãe de D Pedro II, pertencia a ela.

– A OIT foi criada como parte do Tratado de Versalhes no capítulo que tratava da Justiça Social. “Paz universal e permanente somente pode estar baseada na justiça social”. Getúlio Vargas aludiu ao Tratado para a criação da CLT.

– As guerras também trazem avanço tecnológico. A pesquisa de explosivos, armamentos, comunicações, melhores equipamentos médicos e meios mais eficientes de tratamento, resultaram em novos fertilizantes, aparelhos de Raio X portáteis, absorventes cirúrgicos, lâmpadas ultravioleta, melhoria da aviação e dos meios de comunicações e, infelizmente, também novos armamentos e gases mortais. Nesta semana mesmo, vimos nos diversos noticiários o uso do Sarin na Síria, gás letal proibido em tratados e convenções internacionais.

Mário C Corrêa

Brasília, 06 de abril de 2017

 

 

 

O Fio da Vida, Kate Atkinson – Contribuição de Teresa Lirio

O Fio da Vida, Kate Atkinson

Contribuição de Teresa Lirio para o debate de 5/04/2017

Convidada a falar sobre os aspectos emocionais, destaco inicialmente as emoções suscitadas pela leitura de um livro aberto a múltiplas interpretações.  Acho que O Fio da Vida, de Kate Atkinson, desperta nos leitores a angústia diante da não compreensão e da impossibilidade de organizar os acontecimentos dentro de uma lógica racional. Podemos suportar o “não saber” e nos enriquecermos, como é o propósito dessa reunião, com suposições, imaginações e possibilidades aventadas sob os mais diversos vértices de observação. Poderemos também aderir a alguma teoria e nos convencermos de termos desvendado os enigmas dessa trama. Eu proponho ficarmos no terreno das múltiplas possibilidades procurando expandir significados a partir de olhares diversos.

Nesse sentido podemos seguir a própria autora, e considerar suas citações, na epígrafe, como fios condutores de sua motivação para escrever essa trama.

Primeira citação –  Nietzsche:  O tempo não é uma sequência de eventos determinados pelo evento anterior. O tempo é infinito e cíclico, portanto passível de retorno. Essa primeira citação se refere ao princípio do eterno retorno. “ Se você tivesse que viver tudo, uma e mais vezes incessantemente, o que sentiria? Recorrendo a imagem de um portal chamado “Instante”, ele descreve uma situação em que se juntam dois caminhos que duram uma eternidade: um que corre para trás e outro que corre para diante. No instante do presente, está condensada toda a eternidade; por isso é preciso nos apropriarmos de nossas escolhas e diferenciar o que vale a pena ser vivido.  Não há para Nietzsche uma vida após a morte, tem que ser aqui e agora.

Segunda citação –  Platão/Heráclito?  “Todas as coisas se movem e nada permanece imóvel”. Ao tentar dar conta do permanente e do transitório, Platão criou muitas teorias. Mundo sensível/ mundo das ideias. Corpo/alma. Metempsicose e Reminiscência. Imortalidade da alma. Para que alguém recorde algo, é necessário que antes tenha aprendido. Aquilo que recordamos foi aprendido numa outra existência, na qual a alma contemplou as ideias. Platão afirma deste modo que a alma preexiste ao corpo e sobrevive à sua morte.

Terceira citação – E se tivéssemos a possibilidade de fazer tudo de novo e de novo até afinal fazermos certo? (A experiência como fonte de aprendizagem e transformação)

Na estória contada por Kate Atkinson, alguns “instantes”, como propunha Nietzsche, determinavam o desenrolar dos acontecimentos futuros. Mas, as situações vividas se repetiam e Úrsula podia mudar os instantes decisivos. Assim, ela parecia viver muitas vidas…

O que chama a atenção, desde o início, é a extrema sensibilidade de Úrsula. Desde bem pequena ela era diferente. Registrava o mundo sensorial nos mínimos detalhes. Pressentia os acontecimentos e tinha tal sintonia e empatia com o outro que sentia na pele as dores de quem amava. Essa mesma sensibilidade que abre para a intuição e para a comunicação sem palavras, também pode resultar na apreensão de algo da realidade que não pode ser suportado. Todos temos um escudo protetor, seja pela imaturidade na infância, seja por defesas construídas, pois a realidade pode ser intolerável, gerando cisões da personalidade. Muitos estados patológicos resultam de uma exposição a algo que foi percebido precocemente. Nesse sentido a potencialidade se transforma em adoecimento.

Úrsula seria uma pessoa de extrema sensibilidade, com intuições e capacidade imaginativa para viver em sua mente as múltiplas realidades, ou os relatos correspondiam a delírios e perturbações psiquiátricas? Ela pressentia o que iria acontecer no futuro, como um fenômeno dejà vu? Por uma vivência anterior, tipo reminiscência e metempsicose como pensava Platão? Por vidas passadas? Por algum tipo de patologia cerebral? Como um fenômeno premonitório como defende a parapsicologia? Por uma comunicação de inconsciente para inconsciente que se expressa como intuição? Ou poderia estar imaginando o que poderia ter acontecido, criando versões não vividas, de situações apavorantes ou desejadas? Tipo fantasias, sonhos? E, na tentativa de elaborar algo traumático as angústias iam e voltavam e voltavam?Podemos pensar ainda nas complicadas teorias da física quântica, nas dobraduras do tempo…

Afinal como podia viver em um tempo não linear, e em espaços múltiplos e excludentes?   Viveu a segunda guerra na Alemanha ou na Inglaterra?  Essas questões mantêm o suspense e deixam o leitor ligado na leitura até o fim; fazem parte da estratégia do autor, mas em minha opinião não podem ser respondidas.

Acho que a estória nos captura também por acenar com a possibilidade de fazer tudo de novo e de novo, até acertar! Como seria maravilhoso ter uma segunda chance…poder consertar, reparar, evitar os acontecimentos dolorosos…. Esse desejo, o de não ter que se haver com o irreversível e o irreparável da dimensão trágica da existência, habita em todos nós. Aprendemos a duras penas que esse é um desejo inalcançável, mas, com Úrsula essa ilusão retorna irresistível e, momentaneamente, aliviados, lhe damos as boas vindas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Amante Japonês, Isabel Allende – Apresentação de Teresa Lirio

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Nome: O amante japonês
Autor: Isabel Allende
Ano: 2016
Data do encontro: 02/02/2017
Apresentação por: Marília, Andyara, Andreia e Teresa Lírio


Encontro de 2/02/2017

Para ver apresentação clique aqui:  O amante japonês

Protagonismo, Repetições e Transformações.

Sobre o livro O Amante Japonês, de Isabel Allende

Teresa Lirio


Em uma entrevista perguntaram a Isabel Allende de onde ela tirou força para escrever o seu livro Paula. Ela falou bastante da filha, de sua dor, do quanto se expôs no livro e disse que na verdade foi o inverso: escrever lhe deu forças.

Falando de seu processo criativo, disse ter muitas sementes, algumas florescem, outras não. Vai se interessando por histórias, ouvindo as pessoas, e de repente surge um encontro fértil entre o que ouviu com algo que tenha significado especial para ela. Daí nasce um novo livro.

Achei muita semelhança entre o seu processo criativo e o processo de produção dos sonhos. Somos todos escritores e cineastas. Na teoria psicanalítica, fantasias e angústias, enfim, conflitos, constituídos pelo desejo em seu enfrentamento com a realidade, são os protagonistas dos sonhos. O processo de elaboração onírica, transforma os conteúdos latentes em conteúdos manifestos, resultando na narrativa do sonho. Muitas vezes, um sonho é seguido por outro, aparentemente diferente, mas motivado por aspectos inconscientes semelhantes. Como se da primeira tentativa de elaboração resultasse uma aproximação maior com a dinâmica inconsciente, que vai insistindo e encontrando menos resistência em se expressar.

Nos sonhos, os aspectos inconscientes dão o tom do conteúdo latente, já nos escritos ou filmes, embora sempre possa haver algo inacessível, os fatores inspiradores podem ser do conhecimento do escritor.

No momento da escrita do Amante Japonês, Isabel estava as voltas com o envelhecimento, e, com muitas interrogações sobre o amor na maturidade, interessada em entender como o amor acaba, e, se pode haver paixão na velhice. Seu casamento havia acabado, estava muito carente e quis escrever uma história de  amor…

Escreveu uma estória com duas tramas que se cruzam. Um casal mais velho e outro mais jovem. Estórias separadas por décadas e por diferenças sócio/econômicas/culturais, mas com semelhanças significativas.

Que fatores comuns movem essas tramas? Quais os protagonistas? Alma e Ichimei? Alma Belasco e Irina Balizi?

Em 1939 – início da segunda Guerra – Alma Belasco foi mandada pelos pais para América devido ao perigo do nazismo e foi acolhida pelos tios em São Francisco.  Enamorou-se do filho do jardineiro, Ichimei Fukuda.  Irina também deixa sua cidade e sua família e sofre com a violência da guerra.

Os pais de Alma foram mortos pelo Nazismo. Irina também perdeu os pais, não por morte, mas pela perda da função de cuidadores e protetores. Também eles foram atingidos pela violência da guerra e pela miséria de vida que levavam e que os tornou embotados afetivamente. Ana foi protegida, Irina foi abusada, mas as duas conservaram a capacidade amorosa.

Nas duas histórias, temos o desafio de vencer a diferença socioeconômica. As duas têm seus segredos; aliás,  a autora diz que o segredo e o suspense são fundamentais, e que nessa estória todos tem os seus segredos.

Aparentemente Alma e Irina  vivem um amor impossível…. Alma consegue reverter essa impossibilidade por sua determinação e liberdade interior. Irina também tem seus recursos; sua força de vida fêz com que apesar de tudo o que sofreu, continuasse amorosa, alegre, curiosa, enfim cheia de vida e fosse a pessoa cativante por quem Seth se apaixonou.

Comparei essas duas histórias a sonhos de uma mesma noite, nos quais os temas da vida de Isabel Allende, os assuntos que importam a ela têm o protagonismo.  Diferentes narrativas, com os mesmos elementos motivacionais.

São histórias de superação, de valorização da tenacidade na luta contra a adversidade, contra os preconceitos, e contra a violência. Em entrevistas a autora expressa seu horror a impunidade, e conta de seu engajamento na luta pelos direitos das mulheres e pela afirmação da liberdade.

Aliás, todos esses valores já são antecipados na epígrafe em homenagem a Soror Juana de la Cruz.

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Soror Juana nasceu dia 12 de novembro do ano de 1651 na fazenda de San Miguel de Nepantla, próximo à cidade de Amecameca, filha de pai basco e mãe mexicana.

Transcrição de um trecho do texto de Roberto Pompeu de Toledo publicado no Site do Wellignton Farias

“Ela era bela e era freira. Inteligente e admirada. Ser bela e freira, eis uma combinação que intriga e encanta. Era requisitada e festejada, tinha amigos nos altos círculos e, além do mais, era poeta. Principalmente, era poeta. E não uma poeta qualquer, mas autora de uma obra que acabou por consagrá-la como um nome importante da literatura em língua espanhola. “Ouve-me com os olhos/já que estão tão distantes os ouvidos”, escreveu num poema a um amigo ausente. “Ouve-me surdo, pois me queixo muda. “ Ela amava os paradoxos, os jogos com as palavras e os conceitos, e tinha um domínio de virtuose sobre o ritmo da frase. A personagem em questão é sóror Juana Inés de la Cruz, figura importante da literatura do México, onde nasceu e viveu entre 1648 e 1695. Três séculos depois, outra figura importante da literatura do México, o poeta e ensaísta Octavio Paz, falecido em abril último, ganhador do Prêmio Nobel em 1990, fez dela o tema de um livro publicado no original em 1981 e agora lançado no Brasil, Sóror Juana Inés de la Cruz — As Armadilhas da Fé (tradução de Wladir Dupont; Siciliano; 709 páginas; 56 reais).

….

Da menina Juana Inés sabe-se pouco. Amava os livros e a certa altura acalentou o projeto de vestir-se de homem para credenciar-se ao privilégio masculino que era frequentar a universidade. Acabou num convento, o que configura a primeira das duas grandes interrogações de sua existência. Por que resolveu ser freira? Por que, sendo bela e evidenciando mais vocação para a vida social do que para a religiosa, se decidiu pelo convento? A segunda interrogação tem origem lá bem adiante, quando, escritora aclamada em todo o mundo hispânico, decide não mais escrever e entrega-se inteiramente à reserva da vida religiosa. Por quê? Em torno dessas duas interrogações, Octavio Paz constrói seu livro”.

 Livro de Octávio Paz

Ao Introduzir o Romance O Amante Japonês com essa epígrafe, trazendo para a cena Soror Juana, Isabel já nos antecipa que seu livro tratará da luta para vencer a opressão e o preconceito, e do direito a buscar a liberdade e a felicidade.

Além de levar essa luta tocando as pessoas com os seus personagens e histórias, Isabel Allende também criou uma fundação com o objetivo de sustentar financeiramente projetos ao redor do mundo que promovam o empoderamento das mulheres, especialmente pela educação.

Isabel também lutou e venceu condições adversas para se tornar a grande  escritora e a encantadora mulher que hoje conhecemos.


Veja as fotos do encontro aqui:

https://livroseraquetes.wordpress.com/2017/02/02/fotos-do-encontro-do-dia-02022017/

 

Choro e Literatura – Apresentação de Vera Correa no evento – 2016 acaba “chorando baixinho”

CHORO E LITERATURA

O QUE SE ESCREVIA NO SÉC. XIX? QUEM LIA?
O QUE FOI O SÉC. XIX?
http://www.rio-turismo.com/historia/seculo-18.htm

http://www.rio-turismo.com/historia/seculo-19.htm
Até 1808, Colônia. Até aqui, atividade econômica centrada na agricultura e na mineração. Ensino apenas básico. Cunho religioso.

1808 – Corte portuguesa veio para Rio de Janeiro.
. Administração e serviços jurídicos
. Abertura dos portos
. Imprensa Régia
. Bandas de música junto a irmandades religiosas e a regimentos (muitos chorões se formaram em bandas)
. Criação de ensino superior
. Missões artísticas e científicas
. Crescimento demográfico
. Formação de uma classe média
. Urbanização acelerada

1821 – Retorno de D. João VI a Portugal
. Lutas populares pela independência
http://www.m.vermelho.org.br/noticia/193156-1
1822 – “Independência ou Morte!”
. Outros jornais
. Romancistas publicam nos jornais (os folhetins)
. Alfabetização cresce
. Teatro musicado/teatro de revista (C Gonzaga, A Azevedo, C Gomes, Martins Pena)
. Movimentos pela abolição do trabalho escravo

1888 – Abolição
. Substituição atividades dependentes do trabalho escravo
. Investimentos em infra-estrutura
. Novas atividades.
. Novas profissões

1889
. Baile da Ilha Fiscal
. Proclamação da República.

ESCOLAS LITERÁRIAS
ROMANTISMO

G Dias, A de Azevedo, C Alves, J Manoel Macedo, J de Alencar, B Guimarães, F Távora e M de Assis.

REALISMO e NATURALISMO
M de Assis (de novo), R Pompeia, Arthur Azevedo, A Caminha

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Escolas_da_literatura_brasileira

https://www.google.com.br/amp/www.infoescola.com/literatura/escritores-do-realismo/amp/?client=safari

http://m.suapesquisa.com/romantismo/principais_escritores_brasil.htm

Século em que se buscou a identidade nacional: política, literária, musical.
Foi neste ambiente que vicejou o choro, uma genuína expressão da alma brasileira.

Ferreira Gullar

Ontem, dia 4/12/2016, faleceu o poeta Ferreira Gullar.

 

Metade

de Ferreira Gullar

 

Que a força do medo que eu tenho,

não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito

não me tape os ouvidos e a boca.

Porque metade de mim é o que eu grito,

mas a outra metade é silêncio…

Que a música que eu ouço ao longe,

seja linda, ainda que triste…

Que a mulher que eu amo

seja para sempre amada

mesmo que distante.

Porque metade de mim é partida,

mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo

não sejam ouvidas como prece

e nem repetidas com fervor,

apenas respeitadas,

como a única coisa que resta

a um homem inundado de sentimentos.

Porque metade de mim é o que ouço,

mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora

se transforme na calma e na paz

que eu mereço.

E que essa tensão

que me corrói por dentro

seja um dia recompensada.

Porque metade de mim é o que eu penso,

mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste

e que o convívio comigo mesmo

se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto,

um doce sorriso,

que me lembro ter dado na infância.

Porque metade de mim

é a lembrança do que fui,

a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso

mais do que uma simples alegria

para me fazer aquietar o espírito.

E que o teu silêncio

me fale cada vez mais.

Porque metade de mim

é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta,

mesmo que ela não saiba.

E que ninguém a tente complicar

porque é preciso simplicidade

para fazê-la florescer.

Porque metade de mim é platéia

e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada.

Porque metade de mim é amor,

e a outra metade…

também

 

 

Traduzir-se

de Ferreira Gullar

 

Uma parte de mim

é todo mundo:

outra parte é ninguém:

fundo sem fundo.

Uma parte de mim

é multidão:

outra parte estranheza

e solidão.

Uma parte de mim

pesa, pondera:

outra parte

delira.

Uma parte de mim

almoça e janta:

outra parte

se espanta.

Uma parte de mim

é permanente:

outra parte

se sabe de repente.

Uma parte de mim

é só vertigem:

outra parte,

linguagem.

Traduzir-se uma parte

na outra parte

– que é uma questão

de vida ou morte –

será arte?

( Ferreira Gullar )

 

 

Cora Coralina – Poesia de Soniahelena

 

Soniahelena iniciou sua palestra na Associação Nacional de Escritores – ANE, em 24/11/2016,  com a  poesia de sua autoria publicada no livro, Ofício: trovador,  em 2014.  

 

 

CORA CORALINA

sôniahelena

 

Nasci na terra de Cora,

na rua da casa de Cora.

Histórias de ruas e becos

contava-nos o meu avô,

que ia à casa de Cora.

Era amigo da casa.

Da irmã e cunhado de Cora.

Só que não havia Cora.

Tudo isto acontecia

antes de Aninha ser Cora.

 

Cora, conheci mais tarde,

quando eu já lá não morava.

Minha mãe é que contava

as aventuras de Cora,

as travessuras de Aninha,

os seus sonhos de rainha,

devaneio de horas vagas,

que a levaram bem distante,

na busca de novas plagas

e aventuras de alma errante.

 

Durante um longo tempo

dela pouco se ouvia.

O que sonhava, onde vivia,

de que mágoas padecia,

que sucessos alcançava,

o que fazia,  quem amava

eram coisas não sabidas,

talvez até esquecidas,

como esquecida, também,

terá ficado Aninha,

 

até que num belo dia

ela retornou quietinha,

em silêncio, elegante,

sem posura nem rompante.

Voltou à casa da ponte,

bebeu da água da fonte

e, depois de estar fora,

Aninha virou doceira,

poetisa, prosadeira,

e todos souberam de Cora.